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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"É preciso encarar o fazer artístico como arte, mas também como um produto atraente que precisa ser divulgado e vendido", conversa com Carlos Fialho.

Editora Jovens Escribas
Carlos Fialho (Diretor Executivo da editora
Jovens Escribas, publicitário e escritor)

Carlos Fialho é dessas pessoas que quando você escuta falar sobre, pensa: Viiiiji, esse ômi se garante demais, boe". E é isso mesmo, ele se garante e garante um monte de outras coisas super importantes para a nossa cena cultural, como todos os livros publicados pela editora Jovens Escribas, todos publicados pelo selo Bons Costumes, o evento anual Ação Leitura e tantas outras coisas que ele coloca o dedo, se envolve e dá caldo, ou melhor, caldo não, dá é um consumé, porque pense numa caba meio alternativo/meio chique arrojado. Rsrsrs...
É dessas pessoas que sabe transitar em tantos espaços e agregar parceiros, artistas, leitores, entusiastas de todas as idades e estilos. E é por essas e outras qualidades que acho super importante saber o que ele tem para dizer e contribuir compartilhando de seus conhecimentos adquiridos ao longo de 10 anos de estrada no campo fértil da literatura e da produção cultural.  
Como de costume entrei em contato com Fialho pelo face e perguntei se ele topava me responder umas perguntinhas básicas sobre sua atuação profissional e tals, ele muito gentil aceitou. Segue abaixo a "conversa":

1- Quando e como surgiu a editora Jovens Escribas?

Fialho: O marco inicial da editora, a primeira ação prática foi o lançamento do livro “Verão Veraneio” (de minha autoria), em 05 de fevereiro de 2004. A ideia surgiu da vontade de juntar um grupo de autores da minha geração para podermos publicar uma coleção de livros juntos e, através desta iniciativa coletiva, chamar a atenção dos livros uns dos outros, promovendo a multiplicação dos leitores. Inscrevemos um projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura Djalma Maranhão e publicamos 4 livros.

2- Quais foram as primeiras publicações da editora e como aconteceu?

Fialho: O primeiro, “Verão Veraneio” (crônicas), foi publicado com dinheiro do autor. Os 4 seguintes: “Lítio” (Romance/Patrício Jr.), “Contos Bregas” (Contos/Thiago de Góes), “É Tudo Mentira!” (Crônicas/Carlos Fialho) e “Escolha o Título.” (Poesia/Daniel Minchoni) foram aprovados na Lei Djalma Maranhão e patrocinados pela agência de publicidade Art&C. 

3- Você escolhe os escritores os convidam para publicarem seus livros através da Jovens Escribas ou eles costumam chegar até você com a proposta e com grana para financiar o projeto?

Fialho: Há as duas modalidades. Eu escolho autores que julgo importantes ou bons de venda, capazes de dar retorno financeiro ou institucional à editora e publico estes com nosso dinheiro. Porém, como somos uma empresa pequena, os recursos destinados a esse tipo de publicação são limitados. Logo, publicamos apenas de 8 a 10 livros por ano com nosso próprio investimento, todos os demais são fruto do financiamento dos próprios autores, graças ao selo “Bons Costumes” criado para livros customizados, ou seja: por encomenda. 

4- Como são financiados os livros lançados pela editora? Você faz uso de leis de incentivo ou prêmios?

Fialho: Em duas oportunidades, fiz uso da Lei Djalma Maranhão de Incentivo à Cultura. Com a ajuda dela, publicamos 10 livros. Porém, outros quase 50 foram publicados com dinheiro da editora ou de autores, pagos com a venda dos mesmos a um público leitor que formamos e cativamos nestes 10 anos de trabalho e lançamentos. Também nos utilizamos de algumas ideias legais diferentes, por exemplo: teve um livro de Pablo Capistrano que pagamos a gráfica com dinheiro da venda de camisetas. 

5- Como você analisa o mercado de livros nesse contexto digital onde o produto virtual está cada vez mais popularizado e disponibilizado de forma gratuita?

Fialho: Estamos entrando no mercado digital. Acabamos de publicar nosso primeiro e-book, o “MovimentAÇÃO” de Fred Alecrim. Em breve, teremos todo o nosso acervo disponível para Kindle e similares. 

6- É possível sobreviver como editor de livros na cidade de Natal/RN?

Fialho: É difícil, mas com muito trabalho, criatividade e técnicas de sobrevivência que fui desenvolvendo com a experiência, tornou-se possível desde fevereiro deste ano, exatos 10 anos depois do surgimento da Jovens Escribas. O segredo está em diversificar as fontes de receita. Nós vendemos livros que publicamos, mas não só isso: publicamos livros sob encomenda pelo selo “Bons Costumes” e organizamos eventos literários a serviço de instituições que nos convidam. Na parte de vendas, além das 4 livrarias de Natal, estamos atingindo cada vez mais pontos de venda em outros Estados e negociando nossa entrada em redes de livrarias nacionais, temos uma loja virtual com frete grátis para todo o Brasil (www.jovensescribas.com.br), participamos com estande de vendas de todas as feiras literárias importantes do Estado, promovemos junto com parceiros eventos de vendas de livros como bazares independentes e fazemos de nossos lançamentos eventos com direito a vendas promocionais de nossos livros. 

7- Você costuma viajar pelo Brasil lançado obras literárias, participando de debates e eventos no segmento, de acordo com sua vivência nesse universo como você analisa o público/consumidor de literatura aqui no RN?

Fialho: Temos uma defasagem educacional muito grande, mas temos trabalhado para formar um público leitor, através da publicação de bons livros e da divulgação de nossos autores por meio de participação em feiras, festivais e do nosso evento: AÇÃO LEITURA, que leva nossos escritores para um contato direto com estudantes.

8- Enquanto escritor você carrega uma característica irônica, porém leve e engraçada em sua escrita, que tipos de situações te inspiram para redigir suas crônicas?

Fialho: O dia a dia, o cotidiano, uma frase engraçada dita por alguém, um livro inspirador que eu li, um filme que eu tenha visto, um acontecimento corriqueiro, mil coisas. Uma boa ideia de crônica pode estar em qualquer lugar. Porque, como dizia um professor meu, Kokinho: “Quem sabe escrever, escreve até sobre falta de assunto”. 

9- Quais são suas referências culturais e quais programas costuma frequentar aqui na cidade?

Fialho: Gosto de ler prosa, ficção, sejam contos, crônicas, romances. Também leio poesias, biografias, não-ficção, seja por curiosidade ou por dever de ofício. Leio muito os autores contemporâneos, brasileiros ou não, mas também expio meus pecados visitando os clássicos. Estou sempre em lançamentos, sejam em livrarias, no Sebo Vermelho, Academia de Letras ou locais alternativos. Vou todos os anos ao FLIQ (Feira de Livros e Quadrinhos de Natal), à FLIPIPA (Festival Literário da Pipa), ao FLIPAUT (Festival Literário Alternativo da Pipa), ao FLIN (Festival Literário de Natal) e à FLM (Feira do Livro de Mossoró). Na música, frequento a Ribeira, não perco um Circuito Ribeira nem Festival Dosol. Também prestigio bandas que eu gosto como Dusouto, Sangue Blues ou Far from Alasca no El Rock.  Também fico atento a apresentações de Khrystal, Camila Masiso, Diogo Guanabara e Dudu Galvão. Eles arrasam! Gosto daquele projeto Som da Mata, pois dá pra ir com a família. No teatro, sou fã das meninas e meninos do Clowns de Shakespeare e venho conhecendo mais gente bacana daqui, como o Bololô e o Facetas e Mutretas. 

10- Você não costuma fazer muito uso de leis de incentivo e coisas do tipo para realizar seus projetos, que dicas você compartilha com os produtores e artistas que estão na labuta diária de conseguir apoios e parceiros para terem êxito em seus planos?

Fialho: Tentem aprender a lidar com as leis, envolver-se na administração de sua arte, transformar-se em gestores do que produzem, pois é preciso encarar o fazer artístico como arte, mas também como um produto atraente que precisa ser divulgado e vendido. É com profissionalismo que se viabiliza um trabalho como artista ou agente cultural. Se não tiver talento para gerir recursos ou paciência para os complicados formulários de leis de incentivo, busquem ajuda. Há diversos produtores culturais na cidade que atuam na captação de recursos, nos trâmites burocráticos e na condução de projetos. Se não souber, procure quem sabe. Um grande abraço a todos! Sigam-me no Twitter! (twitter.com/cfialho)
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E aí, gostaram do conteúdo? Aproveita e compartilha com os amigos e companheiros de labuta. Para saber mais sobre o trabalho de Carlos Fialho, acessem os links abaixo:

Fanpage Jovens Escribas> https://www.facebook.com/jovensescribas
Site Jovens Escribas> http://www.jovensescribas.com.br/

Vamos aproveita e consumir os livros da editora Jovens Escribas. Só tem coisa phyna e de qualidade. Adoro demais. Depois vou fazer até minha listinha com os preferidos, dos que já li, e publicar aqui no blog, fiquem de olho. ;)

Produção Mode On! 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"Proposição, entusiasmo , persistência, criatividade e ética, são essas palavrinhas que fazem a diferença", conversa com Renata Marques

Produtora cultural
Renata Marques
Nossa sessão de conversa desta semana será com Renata Marques, e antes de falar tudo que ela sabe fazer muito bem começo agradecendo por ter aceitado o convite para me responder essas dez questões e também pela parceria de sempre, por ter sido uma pessoa muito importante em minha formação, que tive a oportunidade de conviver dias intensos e compartilhar sonhos e produções. Tô contigo e não largo, sou sua fã! [Momento declaração, rsrs... Mas é isso mesmo, uma das coisas que aprendi é reconhecermos as pessoas que estão junto, que nos ajudam e nos impulsionam, Renata é uma dessas pessoas].

QUEM É RENATA MARQUES?

Produtora, Gestora Cultural, Comunicadora e Poeta. Atua a 7 anos no campo da produção e gestão cultural em Natal através de produções independentes e também da Associação Tropa Trupe, um grupo de artistas e produtores envolvidos com as artes cênicas, em especial a linguaguem do circo. No campo da produção tem experiências nas áreas de elaboração e execução de projetos, tendo aprovado projetos anualmente em editais e fundos de cultura. Realizou projetos e intercâmbios culturais com artistas, coletivos e redes da Argentina e Venezuela. É formada em Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN e atualmente é estudante do curso de Produção Cultural do Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN.  Apaixonada por literatura é uma poetisa de sensibilidade à flor da pele. Publicou de maneira artesanal o cordel poético "Versos Poti"e o fanzine "Tua". Em 2010 participou de uma audição poética "Toque de Colher Poema" junto com outros 4 artistas da cidade; em 2012 foi contemplada em 1ª lugar no Concurso de Poesia Othoniel Menezes realizado pela Fundação Municipal Capitania das Artes e em 2013 participou da exposição "Poéticas Ensolaradas "no espaço cultural Solar Bela Vista.

1- Como e quando começou seu percurso na área da cultura?  

Renata: Desde pequena tenho uma afinidade com as artes. Eu, por exemplo, gostava de ajudar organizar as festinhas americanas, montar coreografias com as amigas, escrever poemas na escola... Essas coisas sabe? Na época de entrar na faculdade optei pelo curso de comunicação social. Nesse ambiente conheci e me envolvi com o Lado [R], o Fora do Eixo, a Tropa Trupe,  o Egbé de Capoeira Angola e o Coletivo Ame.  Foi bebendo o conhecimento nessas fontes que iniciei meu percurso. 

2- Quais os desafios mais significativos no início de sua jornada como produtora cultural?

Renata: Na verdade eu vislumbro mais incentivos que desafios no início de minha jornada. Afinal a universidade funcionou como uma espécie de incubadora de alguns desses projetos que mencionei anteriormente. Durante os 3 anos que ocupamos a lona do Circo Tropa Trupe tivemos incentivos como projetos de extensão do DEF/DEART/UFRN e grupo permanente do NAC/UFRN. Quando “a casa caiu” ou melhor “a lona rasgou”, foi a experiência e o repertório adquirido nesse período que possibilitou que revolucionássemos partindo de Natal em busca de novas experiências e mais conhecimento. 

3- Como surgiu a Tropa Trupe? 

Renata: A Tropa Trupe veio de São Paulo carregada na caixola dos sonhos de Rodrigo Bruggemannn e contagiou um monte de gente em Natal. Eu fui uma delas!  Hehehe 

4- Como a Tropa Trupe tem se estabelecido profissionalmente na cena cultural? 
#Produção #Financiamento #EspaçoPróprio

Renata: A sustentabilidade foi e continua sendo um desafio nosso. Antes mesmo da “lona rasgar” o contexto que já estávamos vivendo era muito instável , politicamente tínhamos em Natal com a (des)gestão de Micarla de Souza, o projeto de extensão tinha “perdido a validade”, a universidade estava mudando de reitoria e o Departamente de Educação Física não nos queriam mais pelas áreas.  Brincamos que saímos corridos daqui, porque nada conspirava a favor.  Não tínhamos entusiasmo de buscar outro espaço na cidade e então decidimos viajar.  Nosso espaço foi cada coletivo que visitamos, cada praça ou  teatro que nos apresentávamos. Conhecemos muitas organizações e formatos de coletivos e convivência.  Foi muito enriquecedor! Depois de um ano e meio mais ou menos decidimos “encarar” Natal de novo. Meados de 2012 saiu o recurso do Prêmio Procultura de Estímulo ao Teatro, Circo e Dança - 2010 e o Prêmio Funarte de Doação de Equipamentos de Iluminação Cênica - 2011, então decidimos investir em um novo espaço o Galpão Tropa Trupe.  Até ano passado o espaço foi gerido com essa verba. No novo espaço já aconteceram apresentações e oficinas,  uma porcentagem  do valor cobrado sempre é revertida para o galpão. Mas essa entrada é mínima.  Esse ano por exemplo estamos bem apertados e estamos pensando mais uma vez em mudar de local. É custoso a manutenção de um espaço, hoje eu vejo dois caminhos: ou buscamos simplificar ao máximo a estrutura (algo apenas para ensaios e treinos) ou se associa com outros grupos a exemplo da A.B.O.C.A. Mas isso serão cenas dos próximos capítulos... 

5- Atualmente estão trabalhando na produção de um novo espetáculo e para angariar recursos optaram também pelo crowdfunding (financiamento coletivo). Como chegaram nesta estratégia e como ela vem sendo estabelecida, os resultados obtidos e quais dicas você passaria para os que estão em busca de novas maneiras de financiamento?
Para conhecer o novo espetáculo, assistam: http://vimeo.com/84795861

A lenda do trapezista cego
Renata: Aprovamos em um edital apenas 1/3 do valor orçado inicialmente. Mesmo assim iniciamos o processo. Passamos todo o ano de 2013 inscrevendo para editais, e até o primeiro trimestre não havíamos recebido respostas então decidimos que deveríamos buscar de realiza-lo, “si o si” como dizem “nuestros hermanos”. Sabemos que temos um público muito presente e atuante, sabemos de casos entre conhecidos e parceiros nossos que viabilizaram projetos como gravação de CD e viagens, através dessa ferramenta e então concluímos: “porque não tentar?”  Fizemos um vídeo em parceria com o Coletivo Caboré e lançamos no Catarse. A duas semana recebemos a notícia que fomos selecionados no Rumos Itaú Cultural com o Projeto “ Agora eu posso ver!” . Agora sim vamos  viabilizar a finalização, estreia e temporada. Então estamos  revendo as estratégias. Demos uma pausa na campanha, estamos em contato com o Catarse para saber como devemos agir.  Vamos dá um retorno pessoal para cada pessoa que nos apoiou e garantir que elas possam estar na pré-estreia do espetáculo. Mas a Campanha estava indo bem... a ferramenta da colaboração coletiva como uma opção de financiamento de uma ação cultural é muito viável. 

6- Além de se dedicar a produção da Tropa Trupe quais outros projetos e ações você está envolvida ou pretende colocar pra frente?

Renata: Aiiiin são muitas as idéias e possibilidades !!! O próximo passo com a Tropa Trupe é finalizar o processo de montagem e estrear o espetáculo A lenda do Trapezista Cego, co-produção Brasil e Argentina com a Tropa Trupe e o diretor Walter Velazquez. É projeto também criar uma fluxo de conteúdo e programação entre as Casas Artísticas “Na Jaguarari” em Natal , na região metropolitana, e Casa Chico Cajá em Pau dos Ferros, no Alto Oeste Potiguar.  Na Casa Jagurari hoje esta funcionando Estúdio INK Tatoo, brechó de figurinos, lojinha de malabares e o Hospeda Cultura.  Esse ano já passou por lá Mañu e Rafiki (Paraguay), Daiani Brum ( Esparatrapo/SP) e agora nesse período de junho e julho estarão na casa 2 integrantes do Circo Social Mison da Venezuela. Em Pau dos Ferros a gestão da Casa Chico Cajá, fica por conta de Rosane Felix, minha super parceira, professora do IFRN, que  tá realizando um trabalho consistente de educação e formação de público por lá. Esses dias o Projeto “ Para eu parar de me doer” realiza oficinas e intervenções poéticas. Essas mesmas ações do grupo já aconteceram na casa em Natal. 
A Casa Artistica me estimula a pensar, trabalhar e propor projetos de intercâmbio e circulação de coletivos, grupos e artistas. Estou em diálogo com grupos da América Latina na Venezuela, Argentina, Peru e Brasil . Os contatos são através de diferentes linguagens:  artes cênicas (Tropa Trupe, Xibalba Itinerante, Walter Velazquez  e Circo Mison) , artes visuais e comunicação (Urbano Aborigen, Nosostras em la calle, Civone Medeiros, Florencia Goldsman e Coletivo Ame) e música (Clarita Pinheiro , Viover Los Piraos e Kultura Santa).  Agora é um momento de planejar,  elaborar,  semear,   em breve veremos o que brota, o que vinga, o que dá.

7- Como você analisa a cena cultural na cidade de Natal em relação a área circense?

Renata: Temos uma cena cultural circense fragilizada. Não temos diversidade nem pluralidade de grupos na cidade, não é investido em espaços de formação, não somos rota frequente de circulação nem de circos nem de espetáculos circenses... 

8- O que te estimula a trabalhar com cultura?
  
Renata: Eu sou apaixonada pelo que faço, quando faço, onde faço e como faço. O que me estimula é o prazer do encontro, do enlace, da possibilidade, da criação, da transformação. 

9- Quais suas referências culturais, o que costuma ouvir, ler, assistir, quais lugares e programação cultural costuma frequentar?

Renata: Estou passando por um momento bem particular e íntimo, acabei de ter bebê então minhas buscas tem sido muito sobre esse universo. No universo da música descobri: Pequeno Cidadão, Palavra Cantada, Música de Brinquedo... Uma coletânea de canções de ninar de todo o mundo... 
Estou fazendo dois cursos on lines, então  entre uma mamada e outra tenho lido sobre gestão de espaços culturais, economia criativa e elaboração de projetos. 
Todo o processo da gestação até a recém chegada do bebê exige tempo e dedicação exclusiva ... não tenho circulado muito pela cidade, mas seria fácil me encontrar pelo CCR, Casa da Ribeira, A.B.O.C.A, Ateliê Flavio Freitas, Pinacoteca, Gira Dança, Barracão dos clowns, Nalva Melo, Facetas, Buraco da Catita, IFRN ...

10- Em suas andanças por outros estados e países, sempre em contato com artistas, grupos, produtores e articuladores, o que você analisa de uma maneira geral como sendo algo que pudesse nos servir para pensarmos e praticarmos em nossas atuações na área cultural aqui na cidade?

Renata na Banquinha
Renata: Proposição, Entusiasmo , Persistência, Criatividade e Ética. São essas palavrinhas e outras más que aprendi nas viagens e que vejo que fazem a diferença. São essas atitudes e valores que eu gostaria de ver praticado na área cultural de Natal.
Eu sinto falta de mais proposições: oficinas, vivências, rodas, encontros, festivais ... Sinto falta de uma permanência  e continuidade de ações para que os resultados possam saltar aos nossos olhos. Porque uma ação contínua e permanente transforma! E isso é que me fascina na cultura. Você sempre vai está ampliando seu repertório.
Nos lugares onde percebi um maior comprometimento da Gestão Pública as coisas parecem que acontecem, simplesmente porque as coisas são facilitadas. Então eu desejo para Natal um gestor cultural capacitado ( não apenas indicado, nem somente artista) bem criativo, competente, ético,  com uma equipe numerosa  e consciente da  sua função, que trabalhe através de consultas à população, estimulando o protagonismo da cultura viva nos quatro cantos da cidade.  Não resolveria tudo mas melhoraria bastante nosso cenário local, pense! 

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E aí, curtiu a conversa, quer saber mais sobre o trabalho de Renata Marques, Tropa Trupe e outras coisitas más? Segue aqui 2 links que irão te levar aos locais certos:

Site da Tropa Trupe: http://www.tropatrupe.com/
Blog abastecido com os poemas e escritos de Renata: http://versospoti.wordpress.com/


Pois é isso, seguirei conversando com esses incríveis personagens de nossa cena cultural que estão transbordando de conteúdos para compartilhar. Agradeço a leitura e peço que disseminem com os amigos e companheiros de labuta. 
Vamos nessa. Produção Mode On!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Produção é mais que uma profissão. É um estilo de vida!", conversa com Marcelo Veni

Sobre produção cultural
Marcelo Veni 
Há 18 anos o produtor cultural Marcelo Veni caminha pelas veredas da cena cultural e está cada dia mais arrojado e preocupado com o reconhecimento, a valorização e incentivo aos artistas do estado. Diante dessa pauta em 1998 surgiu a ideia do Prêmio Hangar de Música, evento anual que homenageia e premia músicos potiguares e brasileiros em diversas categorias.
A conversa com Marcelo Veni me parece bem importante para os que estão na batalha cotidiana desse fazer profissional, pois aqui ele compartilha um pouco de sua auto-estima e saberes que foi adquirindo em sua caminhada. É sempre bom poder absorver um pouco de outras experiências e com isso pensar novas possibilidades além de engrandecer o repertório. 
Segue a conversa.

1 - Você é o idealizador e produtor de um importante projeto na cena cultural da cidade de Natal, o Prêmio Hangar de Música, um projeto que não se encerra numa noite bonita e festiva, mas que se configura num processo de produção artística e valorização da cultura local. Como surgiu o projeto do prêmio e como vem sendo executado ao longo das edições?

Marcelo: A ideia do Prêmio Hangar surgiu em novembro de 1998. Queria fazer algo que homenageasse as bandas do estado no dia 22 de novembro ( dia do músico ) e como estava muito em cima, eu fui amadurecendo o formato de como seria a premiação, os troféus, definindo categorias, integrantes do júri, votação popular. Na noite de 30 de janeiro de 1999 estava realizando a 1ª edição do Prêmio Hangar no espaço underground do vice-versa no Centro da cidade.
Com o resultado da 1ª edição e a repercussão junto aos músicos, na sociedade e imprensa, surgiu o desejo de levar a premiação para um espaço maior, precisamente um auditório; assim foi viabilizado o auditório do CEFET/RN. O  Teatro Alberto Maranhão (no bairro da Ribeira) foi o nosso cenário da 3ª a 10ª edição. Foi lá que vivemos e compartilhamos grandes momentos com o público e com os músicos do estado e de outras cidades. No ano passado com o patrocínio da COSERN, através da Lei Câmara Cascudo e Governo do Estado levamos a premiação para o Teatro Riachuelo iniciando um novo momento do Hangar.
Sempre ouvi sugestões, ideias e críticas como forma de melhorar a cada  realização do projeto. E este é o caminho que venho seguindo. O que é bom vem sendo inserido e aproveitado em cada edição.

2 - Atuar como produtor cultural na cidade de Natal ainda é uma função que se esbarra em dificuldades dos mais variados tipos. Com quais problemas você costuma se deparar no seu cotidiano profissional? 

Marcelo: O produtor tem que transformar as dificuldades em oportunidades, sabendo usá-las a seu favor. Quando penso em produzir algo não me apego mais em questões de que isso ou aquilo vai ser difícil. Não penso mais nisso. Vou lá e busco viabilizar. Produção é resultado de trabalho e determinação.

3- Existe um certo modismo na profissão do Produtor Cultural, muito oba oba que acaba criando um boom crescente de produtores na cidade, como você analisa esse momento?

Marcelo: O boom é bom! Não por modismo ou algo parecido, mas pelo próprio filtro que isso causa, podendo no futuro revelar bons profissionais. Os produtores ganham visibilidade aparecendo em entrevistas e divulgando seus projetos nas tv´s, jornais e sites. Temos um curso de produção cultural no Estado (no IFRN campus da Cidade Alta), então passa a ser natural que se aumente esse interesse pela área.  Eu tive a experiência positiva de ter 05 alunos do IFRN como estagiários na produção do Prêmio Hangar 2013, o empenho e a dedicação de cada um foram bastante satisfatórios para mim. Espero que novos produtores surjam e que possam em breve proporcionar bons projetos, viabilizando mercado de trabalho e a acessibilidade aos nossos bens culturais. 

4- As leis de incentivo a cultura são como oásis no deserto, de repente parece a salvação, porém na prática sabemos da dificuldade em captar o valor que lhe foi concedido pelo governo por meio de um tramite legal. As empresas, pelo que me parece, ainda não estão bem engajadas nesse sistema e muitos projetos acabam sendo contemplados pela lei de isenção de impostos, mas não conseguem de fato captar o recurso. Que tipo de ação você acharia interessante, enquanto produtor, para capacitar essas empresas, futuros patrocinadores e colaboradores da cultura na cidade?

Marcelo: Sempre sugeri que a importância e benefícios das Leis Culturais fossem divulgados amplamente pelo Governo via propaganda na TV, folder explicativo, dentre outros canais de comunicação. Isso demonstraria para as empresas e para a sociedade como um todo o quanto é positivo incentivarem a nossa cultura via leis e programas de incentivos culturais. 

5- Como você costuma realizar seus projetos no que diz respeito a patrocinadores? Tem trabalhado com leis de incentivo, editais ou prefere a captação direta chegando ao possível patrocinador/parceiro/apoiador?

Marcelo: Em qualquer situação tem que visitar, tem que ligar, agradecer a atenção dada. Tem que correr atrás das ferramentas disponíveis. Editais, Leis de incentivo, Fundos de cultura, pequenos e médios apoios. Tudo é bem vindo e tudo é necessário. As parcerias públicas e privadas são fundamentais. Na cultura, como estamos no mesmo barco, a ‘’parceria artística’’ beneficia a todos: Produtores, Artistas e público.

6- Há quanto tempo você atua enquanto produtor cultural e como chegou nessa escolha de profissão? 

Marcelo: Profissionalmente trabalho na área há 18 anos. Mas meu envolvimento com a  arte vem desde os tempos de escola; ampliou nas ações político-cultural no movimento estudantil. Tive uma rápida e importante experiência como ator, sonoplasta e contra-regra em grupos de teatros. Durante um tempo me diverti muito fazendo Cazuza cover em gincanas e nas escolas públicas. Em 1996, quando participei da equipe de apoio da Maratona Fotográfica “Zoon Fotografia”, do carnaval do Bloco das Kengas  e dos shows de lançamento do CD da cantora potiguar  Cida Lobo foi quando tive a certeza que meu trabalho seria com  produção cultural.  

7- Quais são suas referências culturais? O que você costuma ler, ouvir, observar, assistir? Que programas culturais você procura frequentar aqui na cidade?

Marcelo: Nasci em Brasília e morei um tempo no Goiás. A mistura musical do rock com o sertanejo raiz me perseguiu desde sempre. O encontro com a obra de Raul Seixas e Paralamas veio através dos vinis que meu pai comprou e jogou na estante da sala. Cazuza foi amor a primeira música. Legião eu devorava junto com os amigos nos corredores do colégio. Minhas referências vem do rock. Entre rebeldias e canções de amor. Vem do poeta gritando ‘’Deus me livre de ter medo agora que eu me lancei no mundo’’. Vem de uma frase estampada na camiseta te fazendo lembrar que “ Liberdade conquistadas, são liberdades conquistadas.’’
Queria ler mais, muito mais. Tenho cinco livros que não consigo terminar de ler. Mais uns cinco para começar. E querendo adquirir outros. Meu trabalho me consome muito. Ouço muita música. Em casa até canto junto. DVD´s de vários títulos da 7ª Arte estão a disposição no meu quarto. Gosto de ter sobrando. 
Vou em programações do centro histórico ao teatro Riachuelo com a mesma naturalidade. Gosto de cinema, fotografia, teatro, vou às festas, projetos culturais e shows dos mais variados estilos musicais do rap ao forró pé de serra, do reggae a música instrumental, do samba ao rock eu tô lá. Além dos espetáculos de dança e demais expressões artísticas, como o circo, por exemplo. In loco muitas vezes o produtor se faz plateia. È bom assistir como público.  Os espaços gastronômicos e a natureza, como Pipa e Baia Formosa, também me apetecem. 

8- Voltando ao Prêmio Hangar. Na edição 2013 a cidade abrigou um belo evento, grandioso, digno de atenção dos artistas, do público e poder público. O processo de indicação dos artistas para a premiação é organizado de que maneira? Como é selecionado o júri e quais critérios são utilizados para a escolha dos vencedores dentro de suas categorias?

Marcelo: Os principais objetivos do Prêmio Hangar sempre foram os de valorizar, reconhecer, incentivar, homenagear e premiar os destaques da música em nosso Estado. Para a seleção dos indicados a destaque do ano em 2013, foram realizadas pesquisas de opinião direcionadas a músicos, produtores, gestores de espaços culturais, jornalistas e artistas em geral no território criativo da Ribeira. Com frequência recebo cd´s, dvd´s, convites para assistir shows. Esse acompanhamento e interação com o trabalho dos músicos nos palcos, na imprensa e redes sociais proporciona um termômetro e um mapeamento interessante do crescimento e destaque dos artistas dentro e fora do estado. Para um projeto de premiação essas informações são fundamentais, formam uma espécie de base, referências que apontam uma direção.
O perfil do júri oficial foi voltado para a produção e o jornalismo cultural. Um estímulo e valorização de iniciativas na área da comunicação que possam contribuir com uma percepção crítica e positiva da produção musical do Estado. 
 Na premiação de 2013 sugerimos aos integrantes do júri oficial observarem os seguintes critérios para a escolha do vencedor em cada categoria:

Capacidade criativa e de inovação: caráter inovador da atração ou produto no decorrer do ano, agregada a contextualização da trajetória do artista e a sua capacidade de renovação e continuidade do próprio trabalho; 
Coerência artística, domínio do conhecimento, objetividade e coerência estética (relativa ao resultado esperado daquilo a que se propõe);
Potencial de Promoção e domínio dos recursos de comunicação: uso de alternativas criativas de comunicação, novas linguagens, mídias contemporâneas ou tradicionais, lançamento de produtos, realização de shows ou apresentações;
Ética e Responsabilidade Social: compromisso com o segmento cultural, observando sua conduta diante da violação de direitos de terceiros, incluídos os de propriedade intelectual; discriminação de raça, credo, orientação sexual ou preconceito de qualquer natureza.

9- Você parece ser uma pessoa bem inquieta, está sempre na rua, participando de muitas ações e prestigiando o que vem acontecendo na cena cultural da cidade. Você acredita que um produtor cultural deve ter como pauta de trabalho a participação em outros eventos que não só o que ele produz? 

Marcelo: Eu penso que deveria. Para mim produção é mais que uma profissão. É um estilo de vida! 

10- As redes sociais funcionam como uma ferramenta aliada do produtor hoje em dia, por proporcionar infinitas informações ao alcance das mãos, conectar pessoas e sobretudo impulsionar uma mídia. Você é um produtor que costuma fazer uso das redes socais no trabalho? E como pensa essa ferramenta?  

Marcelo: Uso diariamente. É um canal direto com as pessoas, com os artistas e outros profissionais. Um termômetro daquilo que se faz e de como as pessoas reagem e o que pensam sobre suas ações e opiniões. Importante para discutir ideias, estabelecer parcerias, definir e divulgar agendas e projetos, não só com os que estou envolvido, como também os que acho interessante. Muitas vezes sou consultado sobre elaboração de projetos, leis de incentivo e até sugestão para nomes de bandas. Consigo lidar com isso numa boa. Gosto e procuro repassar o máximo de informações. Experiências e informações valem mais quando são compartilhadas.


Para conhecer mais:

Videoclipe do Prêmio Hangar de Músia 2013 - 11º edição: http://www.youtube.com/watch?v=GtJzMWdaRpo

Entrevista com Marcelo Veni por Margot Ferreira: http://www.youtube.com/watch?v=6DjfUthp034

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sobre jornalismo cultural e outras práticas: Conversa com Yuno Silva

Jornalismo Cultural
Foto: Samuel Chicole
Yuno Silva é um cara potente. Um formador de opinião que tem voz em um meio muito forte, o jornal impresso Tribuna do Norte, onde assina artigos no Caderno Viver, o único caderno fixo de cultura em um jornal impresso aqui na cidade de Natal. É bem importante, diante disso, sabermos quem é essa pessoa, como ela pensa seu fazer e como o executa. Aproveitei também para trazer a superfície outras questões, pois por ele ser uma pessoa que gosta de polêmicas e está sempre participando de discussões acaloradas, então não consegui segurar perguntas sobre o Fora do Eixo, sobre a cena do jornalismo cultural na cidade e também sobre seus projetos e vida. 
Aproveitem a leitura. Essa sessão no blog tem o simples objetivo de nos aproximar cada vez mais de pessoas que fazem o cotidiano da cena cultural na cidade de Natwon.  

1) Você é um dos referenciais quando falamos em jornalismo cultural aqui na cidade de Natal. Como você pensa seu fazer profissional? Quais foram seus impulsos para focar nesta área do jornalismo?

Yuno: Primeiro penso na responsabilidade de atuar como repórter no único jornal impresso do RN que mantém um caderno regular de Cultura. É uma satisfação e um prazer saber que estou colaborando com o registro político-cultural-e-artístico de uma época e de alguma forma interferindo positivamente na sociedade. Por outro lado, o fato de termos pouco espaço - em termos gerais - para uma área tão vasta e complexa como a Cultura, traz certa (ou muita) pressão ao fazer jornalístico: o foco acaba concentrado e a cobrança é proporcional às expectativas. As críticas são sempre maiores que as sugestões ou elogios, e lidar com o universo de egos do mundo artístico requer boas doses de temperança e desprendimento. 
O jornalista de qualquer caderno cultural acaba correndo mais riscos que qualquer outro por, justamente, estar sujeito as constantes avaliações de leitores exigentes e personagens vaidosos. Mas é o risco que move, e damos as duas faces para baterem todos os dias. Quanto as referências, gostaria que houvessem mais, principalmente impressas; vemos muita coisa virtual e não diária, muita coisa reproduzida (copiada e colada) sem uma apuração mais sistemática e cuidadosa, o que acaba prejudicando a construção da credibilidade do conteúdo que está apenas na internet. Em Comunicação a concorrência é extremamente saudável. 
Outro ponto que merece ser destacado é o fato da produção estar concentrada em Natal, muita coisa interessante que certamente acontece em outras cidades acaba não chegando aos leitores e, consequentemente, causa o desconhecimento do natalense sobre o que acontece no interior do RN.
E falando sobre impulsos, já estava envolvido com o fazer cultural (seja criando, produzindo ou consumindo) antes do jornalismo, então costumo dizer que entrei pela porta dos fundos, pela porta da produção cultural.

2) Que elemento se torna de suma importância na profissão de um formador de opinião?

Yuno: São elementos comuns a qualquer área da Comunicação: primeiro deixar os preconceitos de lado sem abrir mão das próprias convicções; ter ética (apesar da palavra parecer estar fora de moda, é a ética que vai determinar a credibilidade de alguém); ser fiel aos fatos e reportá-los de forma responsável sabendo que aquilo que será publicado se tornará público. Importante também é saber separar o pessoal do profissional.
Um exemplo prático é a eterna discussão em torno do grafite x pichação: curto e aprecio grafite, uma arte tão importante quanto qualquer outra que tem a vantagem de estar exposta na rua ao alcance de todos. Já a pichação, tirando toda a carga antropológica que há por trás daquilo, não passa de rabiscos (muitas vezes incompreensíveis) para demarcar território - um troço antigo que poderia ser feito de uma maneira menos grotesca, afinal tecnologia e conhecimento não faltam. 
Esse debate sempre será polêmico e ninguém é obrigado a gostar ou desgostar de algo, basta exercitar o respeito, pois no final todos fazemos parte de um mesmo grupo. Vivemos em uma cidade pequena, onde as pessoas se conhecem nem que seja de vista, e fazer beicinho ou ficar de mal por causa de um comentário só comprova que ainda precisamos superar a egoesclerose para tirar proveito das críticas - que por mais implacáveis que sejam, sempre tem um lado construtivo.

3) Você é um jornalista que trabalha diariamente em um jornal importante da cidade, o Tribuna do Norte, um jornal impresso, com boa saída, leitores fiéis, etc. Existe algum receio que esse meio sofra algum tipo de naufrágio, como aconteceu ao Diário de Natal (o impresso) e como vem acontecendo com diversos outros devido ao boom da informação online?

Yuno: Sim claro, é um sentimento generalizado. Mas o impresso tem sua importância e torço para que se reinvente e continue circulando; apesar dos pesares, o impresso ainda carrega a maior carga de credibilidade junto a sociedade.

4) Qual é o seu processo de pensar um texto, escolher um assunto e lançá-lo na próxima edição do jornal? Existe nesse fazer um estudo mais aprofundado? Pergunto isso porque tenho lido muitas superficialidades, algo que chega a ser cômico, senão trágico, sobretudo no que chamamos aqui de jornalismo cultural, então gostaria de saber de você sobre seu processo de produção de um artigo para o jornal, como funciona?

Yuno: Como em qualquer área, o jornalismo diário requer planejamento. Tirando isso não há uma fórmula fechada: uma boa sugestão de pauta pode vir por e-mail, telefone, uma dica verbal. Por mais que não queira, o jornalista trabalha todo o tempo que está acordado, atento ao que acontece em volta, procurando um gancho em tudo para gerar uma pauta. Tudo isso vai para a discussão com a editora do caderno Cinthia Lopes e vemos qual ou quais os assuntos mais relevantes devem ser tratados.
Quanto ao aprofundamento, o fazer jornalismo diário não deixa muitas brechas para isso: a escala é industrial, não há muito tempo para pesquisar. Como a editoria de Cultura ainda é vista como menor dentro da estrutura de qualquer jornal, com pouco pessoal trabalhando, é natural que alguns assuntos mais dominados sejam melhor desenvolvidos: ninguém nunca vai ser especialista em tudo, e quando a mesma pessoa escreve sobre literatura, artes visuais, música erudita e cinema no mesmo expediente, é óbvio que será impossível produzir best seller com profundidade em série. Talvez isso provoque a superficialidade, afinal não vivemos mais na época que os jornais tinham pencas de colaboradores tarimbados em determinada área. 
E se formos ver não são apenas os jornais diários, tudo está superficial nesses tempos de instantaneidade: TV, rádio, revistas, redes sociais. Ao mesmo tempo, a produção acadêmica, que poderia colaborar com visões mais aprofundadas, ou não tem interesse ou não consegue se comunicar com o leitor médio. Então vivemos em uma encruzilhada, um momento de transição, uma época tragi-cômica.

5) Além do trabalho no jornal Tribuna do Norte você desenvolve outras atividades como a organização do Brechó do Parque, o ativismo no movimento SOS Ponta Negra, não sei se mais alguma coisa, porém quantidade não me interessa. Acredito que essas duas ações que citei tem um peso importante no cena da cidade. Sobre o brechó do parque, quais as previsões para a continuidade deste projeto em 2014? E como o projeto vem sendo desenvolvido em termos de financiamento, organização do espaço, mídia?

Yuno: O Brechó Cultural do Parque de Capim Macio nada mais é que uma desculpa para manter o movimento naquela área verde. O espaço todo seria desmatado para dar uma lugar a uma árida lagoa de captação de águas pluviais: nos agarramos nas árvores e evitamos a derrubada; e sugerimos aos "técnicos especialistas" alternativas mais criativas como aprofundar a outra metade da lagoa, calçar a rua com piso intertravado, incluir a área do parque na conta da absorção da chuva pelo solo. O básico! Envolvemos a comunidade em torno, Ministério Público Federal e Estadual, Advocacia Geral da União, Polícia Ambiental, imprensa (TV e jornal impresso)... aí veio Semopi e Semurb pelo lado da Prefeitura. Por fim, abriu-se um processo e hoje o Parque de Capim Macio existe formalmente no plano de drenagem do bairro, existe projeto de urbanização e verba garantida para isso. 
Penamos quatro anos, sem apoio nenhum da gestão municipal passada, mas sempre inventando alguma coisa pra não deixar de ocupar o parque com atividades - afinal a segurança daquela área não é resolvida com polícia e sim com ocupação: é fato que na medida que a população ocupa a área, espanta as mazelas que existem por lá. O projeto será continuado este ano, mas de forma irregular se continuarmos sem apoio público. Acredito que a nova gestão da Prefeitura está mais sensível e atenta às possibilidades e ao potencial da Parque, e vamos atrás deles. Vislumbro ações não só culturais (Funcarte), como também ambientais (Semurb/Urbana/Semsur/Arsban), sociais (Semtas), esportivas (Secopa/Sejel), acadêmicas (UFRN/UnP) naquele lugar, que pode servir como exemplo não só para outras zonas da cidade como para outros municípios/estados.

6) Sobre o Movimento SOS Ponta Negra, como é organizado, é uma ong, coletivo? As ações acontecem com que periodicidade e quais são essas? Qual o foco do movimento, a questão ambiental, social, preservação cultural?

Yuno: O SOS Ponta Negra nunca foi uma Ong, justamente para aglutinar qualquer associação, ong ou movimento em torno da luta pela manutenção da paisagem de Ponta Negra. Fiz questão de não burocratizar nem hierarquizar: qualquer pessoa pode se dizer membro do SOS Ponta Negra desde que seja coerente com a preservação sócio-ambiental-e-cultural do bairro. Então, como se trata de um movimento informal, não há sede ou atividades periódicas: somos acionados e entramos em ação sob nomenclaturas diferentes. 
Quanto ao foco, ele está concentrado na não construção de prédios de grande porte no entorno do Morro do Careca. A partir disso foram sendo desdobradas outras lutas, serviu de exemplo para o surgimento de novos movimentos que viram a possibilidade de interferir na sociedade com alguma organização. A cidade nunca mais foi a mesma depois daquele setembro de 2006, as pessoas estão cobrando mais e saindo da zona de conforto para defender algo que acreditam, garantir a qualidade de vida - vide o recente caso sobre as árvores da Mor Gouveia. Afinal queriam derrubar para quê? Para as raízes não prejudicarem o asfalto? Oras, que passem mais devagar e aproveitem a sombra. Esse papo de cortar uma árvore adulta em Lagoa Nova para replantar uma muda lá em Neópolis não cola: tem que preservar e arborizar cada vez mais, só questão de bom senso.
A mudança começa dentro de casa, depois no quarteirão, no bairro e assim vai... fiz muito mais amigos que inimigos durante o SOS Ponta Negra, e quando ouvia gente falando pra ir cuidar da minha vida, tinha certeza que estava fazendo isso.

7) Quando aconteceu todo o burburinho sobre o movimento Fora do Eixo em 2013, você foi uma das pessoas que esteve sempre presente de forma a emitir opiniões, criticar e inclusive ouvir o coletivo representativo da rede aqui em Natal. Como você poderia resumir a sua opinião sobre a rede Fora do Eixo e sobre tudo que você observou por longos anos em relação a esse movimento?

Yuno: Posso dizer sem medo de errar que fui um dos primeiros aqui de Natal a ter contato com a filosofia do Fora do Eixo, isso lá pra 2005/2006 quando a coisa ainda estava concentrada em Cuiabá. Acho a proposta incrível, viável, moderna, até revolucionária, massss a forma como a cúpula conduz a coisa não me atraiu: o poder revela a verdadeira índole das pessoas e não compactuei com o modus operandi do Fora do Eixo, que prioriza a produção, o produtor de evento. 
Sempre critiquei o fato do coletivo focar na produção de eventos, elaboração e realização de projetos, ou seja, não é um coletivo de artistas e sim de produtores (que sejam artistas que se autoproduzem).
O FdE começou com música, com os produtores de festivais de música para ser mais exato, e depois foi abraçando outros segmentos. O problema é que o conteúdo ficava/fica sempre em segundo plano justificado pelo papo de que "o cachê é simbólico por que montamos essa super estrutura e chamamos o público para você mostrar seu trabalho". Sem cachê não há estímulo para novos artistas/talentos seguirem carreira, buscar qualificação; por outro lado os produtores dos eventos acumulavam benefícios (se não financeiro, tem o político, o sócio-cultural), dominaram a cena, se tornaram autoritários e se autodenominaram os intocáveis com direito a massacrar qualquer um que ousasse criticar a forma de agir do Fora do Eixo. 
A máxima defendida por eles que "músico igual pedreiro" é uma tremenda falácia, serviu apenas para controlar os ânimos dos mais críticos: pra mim músico é músico, pedreiro é pedreiro, produtor é produtor, advogado é advogado, jornalista é jornalista; cada um tem seu papel na sociedade e deve procurar qualificação e formação para se destacar dentro de sua área. Hoje lemos relatos comentando a podridão que circulava por baixo do pano, gente tirando vantagem, abusando individualmente de um poder conquistado de forma coletiva.

8) O caderno Viver do Tribuna do Norte lançou um vídeo retrospectiva sobre a cena cultural de 2013 aqui na cidade. Quais fatos você, de fato, grifaria como importantes para a cena e quais outros pontos mereciam atenção e não foram contemplados na retrospectiva do Tribuna?

Assistam o vídeo: http://tribunadonorte.com.br/video/4268

Yuno: A memória curta do brasileiro é famosa, então vou citar algo que aconteceu no final do ano: o fato mais importante, pra mim, foi o desaparecimento (e a posterior devolução, felizmente) das cinco gravuras de Tarsila do Amaral da Pinacoteca do Estado. Resume e reflete como a Cultura é mal cuidada por quem deveria zelar pelo patrimônio, que é público. A performance de Khrystal no programa The Voice Brasil também foi bem importante, extremamente positivo para a autoestima do potiguar. 
Quanto as áreas que mereciam mais atenção, diria que a dança e as artes visuais, realmente ficaram de fora - a lista foi feita a partir do conteúdo gerado ao longo do ano, e elencamos os fatos mais significativos. Na compilação, esses dois segmentos foram suprimidos, mas nada proposital. Serve para atentarmos e fazermos melhor na próxima (uma prova que a autocrítica e a autoavaliação é permanente!). 

9) Quais suas referências culturais? O que você costuma ler, ouvir, assistir, praticar, contemplar?

Yuno: Nasci nos anos 70, então era adolescente nos 80. Meus dois primeiros LPs foram Thriller do Michael Jackson e Cabeça Dinossauro dos Titãs; assisti O Anjo Exterminador de Buñuel quando tinha de 16 para 17 anos, uma revolução. A música e o cinema sempre estiveram muito mais próximos. Em casa sempre tivemos um equipamento de som bem mais possante que a TV, sempre com muitos LPs (muitos mesmo!) à disposição: rock nacional, os clássicos do rock, MPB, erudito. Cheguei a assinar quase dez revistas ao mesmo tempo: de Playboy a Superinteressante. 
Atualmente tenho me esforçado para cuidar melhor da saúde do corpo, voltei a praticar natação com regularidade (sabe como é, o metabolismo vai caindo...). Continuo frequentando o cinema, garimpando na Sétima Arte, ouvindo de tudo. Leio menos do que deveria, a meta para 2014 é um livro por mês de todos os gêneros.

10) Quais outros nomes você indicaria como referências no jornalismo da cidade de Natal que tenham como pauta a cultura? Poderia compartilhar links ou apenas citar?

Yuno: Temos poucas opções:  a Revista 14 era uma boa opção mas anda meio paradona; o fanzine Lado R era outra boa opção, mas acabou. Estou curtindo o novo fanzine do Rodrigo Hammer "K", sobre cinema. Leio o Henrique Arruda, as coisas do Beto Leite (quando ele publica). Dou uma olhada no Substantivo Plural, mas acho uma gaiola de egos inflados demais que se torna enfadonho e pouco apetitoso. Algumas entrevistas da Dani Pacheco são bem legais. Também circulo por alguns blogs locais (que não recordo o nome), mas nada imperdível; vejo muita fofoca nesse meio e gente querendo aparecer/repercutir de qualquer jeito, até de maneira irresponsável. Detalhes que só enfraquecem o jornalismo cultural da província.


Para navegar na rede:

Site do Movimento SOS Ponta Negra:  http://www.sospontanegra.org/ 
Site do Projeto Amigos do Parque de Capim Macio:http://www.parquedecapimmacio.org/
Acompanhem Yuno Silva pelo Twitter: https://twitter.com/yunosilva


sábado, 4 de janeiro de 2014

"O cinema é uma experiência sensorial", conversa com Carito Cavalcanti

Cinema, do grego Kinema, que significa "movimento", uma técnica que reproduz imagens em movimento. Uma linguagem usada para fins vários, do lazer a doutrinação, um método eficaz para difundir ideias com forte poder de comunicação. Uma história marcada pelo aprimoramento tecnológico e consequentemente pela sensibilidade e contexto do fazer cinematográfico de cada realizador.  
Para começarmos bem o ano falando sobre cinema, mandei um e-mail para Carito Cavalcanti com algumas perguntas e eis as repostas:

Em Portugal acompanhando o grupo de teatro Clwons de Shakespeare
Foto: Ronaldo Costa



1-Como você pensa o cinema?

Carito: Eu penso o cinema sonhando. Cinema antes de tudo como imagem em movimento. Mesmo quando aparentemente parada, se movimentando na respiração do silêncio, entendendo também a dinâmica do aparentemente estático. Gosto do chamado cinema de arte, cinema de autor, viajo em cineastas como Antonioni que diz que um filme não precisa ser entendido, um filme é para ser sentido: "o cinema é uma experiência sensorial". 

2- Quando e como se deu a sua relação com essa linguagem, tanto no âmbito da contemplação, como no fazer?

Carito: Acredito que desde pequeno. Lembro que eu e meu irmão Mario Ivo, ainda crianças, tivemos uma experiência cinematográfica no nosso quarto, quando a partir de uma idéia da revista "Recreio" (que nossa mãe comprava pra nós), montamos uma caixa mágica: fizemos a tirinha de papel com as imagens, a película, que era toda enrolada num lápis, e ao ir enrolando-a no outro lápis as imagens iam aparecendo na caixa mágica de papel, frame by frame... Um ficava fazendo isso, e o outro, distante, com o quarto escuro, jogava um feixe de luz a partir de uma lanterna, para parecer que as imagens estavam vindo de um projetor, como no cinema. O som da radiola da minha irmã fazia a trilha sonora. Ainda lembro a música: "Why can't we live together", de Timmy Thomas, 1973 (http://www.youtube.com/watch?v=Tz1yjKMIfD0&feature=youtu.be). Quando éramos adolescentes, nossa mãe comprou um video-cassete, acho que foi um dos primeiros de Natal... rsrs... E aí a magia se intensificou... Como sempre me interessei por muitas linguagens, acho que naturalmente o cinema ia ganhar um lugar especial, não só por ser mais uma fantástica linguagem, mas por reunir várias numa só. Sempre fui cinéfilo, e em termos de realização comecei fazendo video-poesia, mas ainda usando fotografia, no início dos anos 90, junto com Alexandre Brito Miúda. Nessa época também fiz umas experiências de poesia audiovisual em slides, com Henrique José. Acho que comecei com o cinema desconstruído. Também nessa época lembro que fiz um curso de cinema com Giovanni Rodrigues, e realizei um curta junto com Mario Ivo, onde Marcos Bulhões era um dos atores. Em 2010 retomei as experiências audiovisuais, quando fiz o videoclipe para a poemúsica "Estirado no Estirâncio" d'Os Poetas Elétricos, junto com Julio Castro, que ganhou o prêmio nacional de melhor fotografia no II Fest Clip em Santa Gertrudes (São Paulo). A retomada se intensificou quando através do meu parceiro e amigo Vlamir Cruz, conheci a possibilidade de filmar em câmeras hdslr que me aproximou mais da linguagem do cinema. Foi quando comprei uma parafernália de equipamentos e comecei uma parceria com Joca Soares, que além de realizar filmes autorais comigo também me introduziu no meio do video publicitário. Agora também estou paquerando com Eli Santos e Fernando Suassuna, novos parceiros desse meio mágico, difícil, e muito dinâmico.


3- Quais referências são alicerces para seu pensar e fazer cinematográfico.

Carito: Minhas referências são as minhas reverências: esses cineastas maravilhosos e seus filmes voadores. E são muitos: clássicos, cults, contemporâneos... Assistir filmes é sempre uma escola, ou melhor, várias escolas! Gosto da narrativa não linear, gosto de tempos mortos, gosto da poética do espaço, da percepção subjetiva das coisas, da ambiguidade da fronteira entre o documentário e a fiçcão, das "não-histórias", da investigação da linguagem, do exercício de estilo, das metáforas... silêncios ensurdecedores... Enfim,  como já disse antes aqui: do cinema como uma experiência sensorial. 


4- Quais elementos mais chamam a sua atenção numa obra cinematográfica e por quê? 

Carito: Acho que acabei respondendo um pouco dessa pergunta na cena anterior, ou melhor, na pergunta anterior... rsrs...  Mas posso citar alguns exemplos específicos. No filme "A Aventura" de Antonioni, logo no título ele já coloca em xeque o significado imediato que essa palavra pode ter, colocando-a numa possibilidade existencial bem mais ampla. Veja o que diz Luiz Zanin Oricchio, do Estadão, quando analisa o filme: "A vida dissoluta dos ricaços é mostrada neste passeio a uma ilha vulcânica. Um misterioso acontecimento perturba o ambiente: Anna (Lea Massari) desaparece na ilha e ninguém consegue encontrá-la. O que poderia ser apenas um thriller, transforma-se, sob o toque de Antonioni, em um campo de batalha existencial, no qual os personagens se confrontam com suas ambigüidades, sua fragilidade, seu egoísmo, sua relação sempre insuficiente em relação ao outro." Em "O Eclipse" também de Antonioni, destaco o apartamento da vizinha africana da personagem de Monica Vitti, que desconcerta a personagem de Monica Vitti, com seus quadros etnográficos, com toda aquela vida africana dentro daquele apartamento italiano. Há então uma passagem inusitada no filme quando Monica Vitti simula uma dança africana, pintada e vestida a caráter, aparentemente sem muita coerência dentro da narrativa. Adoro quando o filme de repente me leva para outro lugar. Em "A Febre do Rato" de Cláudio Assis, há uma cena que um dos personagens diz ao poeta "gosto das coisas que não entendo". Quando vejo vários filmes num mesmo final de semana, e entre eles tem um blockbuster (mesmo que não seja um blockbosta) que vejo para me atualizar, e também tem um desses filmes considerados difíceis, o filme comercial entra fácil e sai fácil; já o filme, digamos, mais complexo, às vezes entra com mais dificuldade, mas fica. Sempre fica algum momento do filme ecoando durante toda a semana, e às vezes para toda a vida.


5- Sua obra audiovisual levanta uma questão sobre a categorização, como você pensa isso? 

Carito: Recentemente, no festival de Barra de Camaratuba, uma espectadora falou algo a respeito... No caso, sobre "Road Movie Num Quarto Fechado"... Acho que ela me perguntou se o filme era ficção ou doc ou videoclipe, pois ela não conseguia entender qual categoria ele se encaixava... Outra vez, no Goiamum, alguém veio me perguntar se "Operação Plástica com Flávio Freitas" era um documentário, pois não parecia... Durante uma exibição desse filme na UNP, um aluno do curso de cinema me disse que o filme introduzia no doc a linguagem do videoclipe... Não sei se isso é feito de forma consciente, o quanto isso é espontâneo ou provocado, mas gosto dessa ambiguidade e talvez eu naturalmente caminhe cada vez mais pra ela. Durante o curso "Cinema de um homem só" de Gustavo Spolidoro, nessa última edição do Sagi Cine, me identifiquei muito com o conceito de "filme-ensaio", onde o acaso guia o filme, e ele não se encaixa numa categoria específica.


6- Por está inserido nesse contexto como você analisa o setor audiovisual na cidade de Natal? #Políticas de incentivo específicas; #ação dos grupos, #ABDC-RN, #festivais, #parceiros e #público.

Carito: Tudo ainda engatinhando, se organizando, mas acho que num momento bem melhor - a ABDC-RN avançou, os festivais vão bem, as políticas públicas ainda vão mal, mais e melhores realizadores estão surgindo, o público é uma interrogação: por exemplo, na SEDA Helena lotou, a oficina que eu e Vlamir demos no Solar Bela Vista foi lotada todos os dias com excelente feed-back, mas às vezes acontece eventos super-legais e não vai ninguém. Uma das melhores oficinas que fiz, de roteiro, promovida pelo Seminário Cine Natal, tinha pouquíssima gente, praticamente só o pessoal aprovado no edital da prefeitura.


7- Qual sua opinião sobre a produção local no que diz respeito as obras audiovisuais? #qualidade, #conceito, #inovação, #profissionalização, #potência

Carito: É muito delicado eu falar sobre isso, visto que também sou realizador, e não sou crítico de cinema para julgar as obras dos colegas. Estamos amadurecendo. Acho que o grande desafio é alcançarmos um nível de qualidade associado à sustentabilidade.


8- É comum ouvirmos as pessoas dizerem: "Ah, mas não temos cinema no RN, agora que está começando a aparecer as movimentações, filmes, eventos, etc". Concordas com essa afirmação que vem sendo dita nas rodas de conversas? 

Carito: Realmente... como eu já disse antes aqui, estamos ainda engatinhando, mas faz tempo que começamos a engatinhar... Alguém já assistiu o Boi de Prata, de Augusto Ribeiro Junior? Ribeira Velha de Guerra, de Augusto Lula? Palarveando, video-clipe dirigido por Mario Ivo Cavalcanti? Mario Ivo já teve um video-minuto classificado em um festival na Itália, mas acho que pouca gente sabe. Se formos comparar nossa história audiovisual com a produção da Paraíba e Pernambuco, por exemplo... realmente é foda! Mas acho que precisamos nos auto-visibilizar mais... 


9-  Quais são as suas expectativas para a cena audiovisual na cidade de Natal daqui pra frente?

Carito: Espero que possamos nos unir mais, nos organizar mais, e fazermos um audiovisual de qualidade! Tudo vale a cena se a alma não é pequena. Que vivam as 5ds, Black Magics e também celulares e outros ares... Mais conceito, e menos preconceito! 


10- Cite 3 obras contemporâneas que mais gostou produzidas por realizadores potiguares.  

Carito: Fala Comigo, de Eli Santos; Abraço de Maré, de Victor Ciriaco; e Bolou, de Rodrigo Sena.



É isso. E quem quiser conhecer um pouco do trabalho audiovisual de Carito seguem três links:

Noturnos, de Carito Cavalcanti e Joca Soares: https://www.youtube.com/watch?v=O4w2tarz5oA

Operação Plástica com Flávio Freitas, de Carito Cavalcanti e Joca Soares: https://www.youtube.com/watch?v=vrGUjtGZFoo

Estirado no Estirâncio, de Carito Cavalcanti: http://www.youtube.com/watch?v=lDapjKN0qZg